1. Biografia
Darius Milhaud nasceu em Marselha, membro de uma família Judáica. Por isso, sua inspiração para a criação de Chateau du feu, op. 337, cantata em memória dos judeus mortos pela Alemanha Nazista. Estudou no Conservatório de Paris, onde conheceu os músicos Arthur Honegger e Germaine Tailleferre, que fariam parte do famoso “Les Six” (Os Seis), nome dado ao grupo de compositores, o qual Milhaud participou, e que influenciou seu trabalho.
Entre 1917 e 1919, Milhaud viveu no Rio de Janeiro, ondeconheceu a cultura brasileira. Após este período carioca, Milhaud ainda esteve um tempo nos EUA vivenciando o jazz, em 1922, nas ruas do Harlem em Nova York, para somente após retornar para a França.
Mas seu período na França não durou muito, devido à Segunda Guerra Mundial, quando Milhaud foi para os EUA novamente em 1940, onde lecionou em Okland, na Califórnia, no Mills College.
Quando a França foi libertada, Milhaud volta novamente ao seu país, mas continuou lecionando no Mills e no Conservatório de Paris, até 1971, quando se aposentou por estar debilitado e já sem conseguir andar. Morreu em Genebra, com 81 anos, em 22 de junho de 1974.
Darius Milhaud foi um compositor muito produtivo, deixando obras de grande monta e importância na música erudita contemporânea, contando com a politonia.
2. A Música de Milhaud
O contato com a cultura brasileira influenciou muito as compsições de Milhaud após sua visita ao nosso país, inclusive por compositores como Ernesto Nazareth e Tupinambà. E com certeza Milhaud viu a era de ouro, ou talvez a de “prata”, da música brasileira, onde o folclore estava bastante inserido na música popular.
Contudo, Ernesto nazareth já estava à tempos entre o limiar do erudito com seus tangos, como “Brejeiro”e “Escovado”, que Milhaud fez questão de citar na suíte para balé Le Boeuf sur le toit. O maxixe, o samba, a cultura musical brasileira realmente cativou Milhaud.
No Rio, o espetáculo dos cordões e blocos carnavalescos cantando marchas e outras canções na Avenida Rio Branco deixou Milhaud em contato total com a cultura brasileira: "meu contato com o folclore brasileiro foi brutal"; "O carnaval sopra um vento de loucura sobre a cidade". E neste clima de tangos brasileiros e síncopas, Milhaud criou peças eruditas como Scaramouche e Le Boeuf sur le toit.
Após sua experiência marcante e envolvente com o Brasil, Milhaud ainda, antes de retornar para a França, viveu uma época nos EUA e viu as famosas Jazz Band, até então, de certo modo, novidade na década de 20, e de certa maneira ficou encantado com seus improvisos e o jeito “true” das Jazz Bands Norte-Americanas. O jazz influenciado pelo tempero brasileiro fez com que a música de Milhaud criasse um ar de choro, com os improvisos e tiradas dos jazz e os movimentos sincopados do samba brasileiro.
Tal influência do autêntico jazz do Harlem se nota no balé La Création du monde (A criação do mundo) com seis cenas, com movimentos “jazzistas”.
Ainda, devemos falar sobre as influências do grupo de músicos eruditos denominado semi-oficialmente como Les Six (os seis), em uma relação com Os Cinco de São Petersburgo, batizado pelo crítico Henri Collet, que publicou no jornal Comoedia em 16 de janeiro de 1920 num artigo intitulado "Les cinq russes, les six français et M. Satie" ("Os cinco russos, os seis franceses e o Sr. Satie"). O grupo o qual Milhaud fazia parte aplicava a economia de expressão, em afronta ao romanticismo alemão e ao impressionismo. Por este motivo, Milhaud que já era adepto do jazz e adorava a síncopa e ritmos complexos, deixando os compassos simples mais de lado, trouxe à tua produção musical movimentos como o que encontramos em Scaramouche. Esta foi uma obra que caracterizou bastante os ideais do Les Six, com movimentos rápidos, tiradas jazzistas e sincopadas.

Assim como seu colega contemporâneo, Maestro Heitor Villa-Lobos, compunha rapidamente e com naturalidade, embora foi criticado por muitos e condenado por “beirar a banalidade”, por outro lado, a obra Le Boeuf sur le toit, que trazia partes de obras brasileiras. Mas a crítica que ia contra os ideais de Milhaud era a minoria conservadora, pois podemos citar: "Sob uma calma aparente, numa fisionomia quase imovel, uma grande agitação interior, uma paixão contida, uma vida intensa" - assim se refere Paul Landormy em um estudo sobre o compositor, sua vida e sua obra.
3. Minhas impressões sobre algumas obras de Milhaud
Realmente, a genialidade de Milhaud se fez bastante aparente na introdução de La Création du monde, onde a leveza e o aspecto épico se misturam e se completam. Pode-se perceber as vozes trabalhando e se completando, ora distanciando-se, ora harmonizando-se. A afirmação dos críticos de que ninguém sabe usar percurssão como Milhaud parece saltar aos olhos, ou aos ouvidos, nesta obra. Os sopros amadeirados e marcantes são as características que acompanham esta obra. Então, temos o jazz fazendo presença nos instrumentos de sopro e na percussão, com a síncopa bem sacada, sem os exageros das Jazz Bands, e improvisos, mas com certeza, sem deixar de dizer: “Hei! É jazz!”.
Então, ouvi Scaramouche. Bem, nesta obra, percebi a grande influência da cultura brasileira em Milhaud. A obra é dividida em: I. Vif, II. Modéré e III. Brazileira. Na primeira parte, as marchas de carnaval, o breque do samba, tudo isto nos mostra a música erudita com temperos populares que tanto encantaram Milhaud. A alegria do carnaval, o maxixe ligeiro.
Na segunda parte, Modéré, podemos ver o jeito francês fazer-se presente e a moderação contar-nos uma outra nuânce. Bem diferente da primeira parte da obra. Ao ouvir em piano e sax alto, podemos perceber o diálogo claro entre os dois instrumentos, coisa que na primeira parte ficava confuso, como um bloco de carnaval passando nas ruas cariocas na década de 20. E então, a síncopa vem fazer-se mais presente ainda, lembrando os chorinhos dos tangos brasileiros de Ernesto Nazareth. E a síncopa é exatamente tocada como nos chorinhos, mostrando a alegria, quase um “Tico-Tico” ou “Camundongo”.

Destarte, para verificar melhor o trabalho de Milhaud, ouvi Le Boeuf sur le toit. Talvez seja pela minha falta de costume quanto à politonia, mas a impressão que me deu, vez em quando, é que as vozes não falam a “mesma língua”, mas de forma curiosa, momentos após este meu “susto”, tudo volta ao normal, e o “caráter harmonioso aos ouvidos” volta à reinar. E Milhaud faz isto. É breve, claro e politonal como Les Six idealizava. No meu modo de pensar, como um pequeno estudante, mas grande entusiasta da música erudita, Milhaud conheceu os segredos das alterações extremas, e temperou toda esta sabedoria com os ritimos e síncopas brasileiros, fazendo toda essa riqueza de tons, ritimos e beleza em uma só obra. É quase como se eu ouvisse toda a obra de um compositor numa mesma música, tal a grandeza de Milhaud, ou isto se deva à politonia.
Compendiando, Darius Milhaud com certeza veio trazer à música erudita uma coletânea de obras magníficas, com a politonia e síncopas, e levou ao mundo a cultura brasileira, tendo verificado a importância de compositores como Ernesto Nazareth tão esquecido nos dias de hoje.