A época de Maurice Havel
A Alemanha, berço de músicos como Haydn, Mozart, Mendelssohn, Webern e Wagner sofria uma crise musical, que assolava na verdade o mundo todo. E naquela época esta era uma crise que Pfitzner e Richard Strauss, dentre outros, estariam incumbidos de sanar, mas não tiveram êxito.
Na verdade, na França, e Paris tornou-se a capital da música do período que vai de Debussy à Havel. Não sanou-se a denominada “crise da música”, pois tratava-se de uma mudança. A predominância era a hegemonia alemã, e depois francesa. Mas no século XX isto cairá por terra, deixando-se de ver a produção musical por país.
Muitos autores vêm Debussy e Ravel como compositores quase idênticos, mas eu, à exemplo do jornalista e filósofo Otto Maria Carpeaux, vejo grandes diferenças nestes compositores, mas não como ele vê. Percebo diferenças no modo de perceber música entre eles. E a diferença é gritante. Debussy ao meu ver é mais abstrato, subjetivo. Mas Ravel é objetivo e concreto. Sua música foge bastante dos ideais de Debussy, embora segundo alguns autores, ele teria sido debussyano no início. Mas isto veio de ter sido discípulo de Debussy. Devo concordar com Otto Maria Carpeaux quando diz: “Debussy é vago e poético. Ravel é espirituoso e exato.” Mas vejo poesia em Ravel. O que é mais poético do que o tema cíclico de Bolero?
O uso do Sax na Orquestra e na Obra de Ravel
Quando Adolph Sax criou sua “obra-prima”, o saxofone, ele foi para a França. Vejamos que Adolph projetou e construiu seu invento em meados de 1840 e foi apresentado ao compositor francês Hector Berlioz que ficou maravilhado com sua versatilidade e timbre. Em 1844, o saxofone é exibido pela primeira vez em Paris na "Paris Industrial Exibicion"e, no dia 3 de fevereiro do mesmo ano, Hector Berlioz esboça o arranjo do coral Chant Sacre, no qual inclui o saxofone. "Nenhum instrumento que conheço possui essa estranha sonoridade situada no limite do silêncio", afirma H. Berlioz. Ainda em dezembro deste ano, é apresentada a primeira obra original para saxofone, inserido na orquestra de George Kastner, "Opera Laster King of Judá" (O último rei de Judá), no Conservatório de Paris.
Tenho encontrado somente na internet (o que não é uma das fontes mais confiáveis), que Adolph Sax teria feito um desafio. Diz-se que ele colocou seus músicos com os saxofones em número de 28, e a banda marcial francesa com 35 músicos. Diz a “lenda” que os sax teriam sobressaído em timbre, beleza, sonoridade e volume, tendo a partir deste dia, a banda marcial francesa aderido aos instrumento.
Ravel, sendo um compositor francês não faria diferente e colocaria os saxofones em suas obras, das quais a mais conhecida é Bolero. Trata-se de uma encomenda de uma bailarina Ida Rubinstein. A estréia ocorrei em Paris, na Ópera Garnier em 22 de novembro de 1928, onde os saxofones estavam lá, na orquestra, no seu lugar de instrumentos de madeira.
Ocorreu nesta obra um fato bastante curioso, onde lê-se na partitura original um saxofone sopranino em Fá. Contudo, só existem saxofones sopraninos em Mib, e não se sabe ao certo se alguma vez existiu um saxofone sopranino com afinação em Fá ou Ravel pretendia fazer uma transposição. Mas verificando um estudo sobre a patente de Adolph Sax sobre seu instrumento em 1846, onde incluía-se 14 variações, pode-se encontrar o saxofone sopranino em Fá.
Outra curiosidade é que o Bolero é tocado diariamente na Praia do Jacaré em João Pessoa durante o pôr-do-sol, pelo músico Jurandy do Sax.
O uso do saxofone em orquestras não fica restringido à Ravel, mas difunde-se pelo mundo. "Rhapsody" (1903) de Claude Debussy e a "Fantasia Para Saxofone Soprano e Orquestra" de Heitor Villa Lobos são ótimos exemplos do uso destes instrumentos. Talvez devesse ser mais explorado, e deixado de lado o boicote intentado por interesseiros da época de Adolph Sax, e que perdura até hoje, de alguma maneira, quando se diz: sax não é instrumento de orquestra.
Segundo o dicionário de música de Arthur Jacobs, Richard Strauss incluiu um quarteto de saxofones na sua Sinfonia Doméstica, de 1904
Contudo, ainda existe um repertório tímido de peças eruditas para os saxofones e ainda, nas grandes orquestras, os saxofones são tocados por clarinetistas, o que merece ser mudado, já que é um instrumento rico e com especificidade ímpar.

