terça-feira, 8 de março de 2011

Maurice Ravel e o Uso do Sax nas Orquestras

A época de Maurice Havel

A Alemanha, berço de músicos como Haydn, Mozart, Mendelssohn, Webern e Wagner sofria uma crise musical, que assolava na verdade o mundo todo. E naquela época esta era uma crise que Pfitzner e Richard Strauss, dentre outros, estariam incumbidos de sanar, mas não tiveram êxito.
Na verdade, na França, e Paris tornou-se a capital da música do período que vai de Debussy à Havel. Não sanou-se a denominada “crise da música”, pois tratava-se de uma mudança. A predominância era a hegemonia alemã, e depois francesa. Mas no século XX isto cairá por terra, deixando-se de ver a produção musical por país.
Muitos autores vêm Debussy e Ravel como compositores quase idênticos, mas eu, à exemplo do jornalista e filósofo Otto Maria Carpeaux, vejo grandes diferenças nestes compositores, mas não como ele vê. Percebo diferenças no modo de perceber música entre eles. E a diferença é gritante. Debussy ao meu ver é mais abstrato, subjetivo. Mas Ravel é objetivo e concreto. Sua música foge bastante dos ideais de Debussy, embora segundo alguns autores, ele teria sido debussyano no início. Mas isto veio de ter sido discípulo de Debussy. Devo concordar com Otto Maria Carpeaux quando diz: “Debussy é vago e poético. Ravel é espirituoso e exato.” Mas vejo poesia em Ravel. O que é mais poético do que o tema cíclico de Bolero?

O uso do Sax na Orquestra e na Obra de Ravel

Quando Adolph Sax criou sua “obra-prima”, o saxofone, ele foi para a França. Vejamos que Adolph projetou e construiu seu invento em meados de 1840 e foi apresentado ao compositor francês Hector Berlioz que ficou maravilhado com sua versatilidade e timbre. Em 1844, o saxofone é exibido pela primeira vez em Paris na "Paris Industrial Exibicion"e, no dia 3 de fevereiro do mesmo ano, Hector Berlioz esboça o arranjo do coral Chant Sacre, no qual inclui o saxofone. "Nenhum instrumento que conheço possui essa estranha sonoridade situada no limite do silêncio", afirma H. Berlioz. Ainda em dezembro deste ano, é apresentada a primeira obra original para saxofone, inserido na orquestra de George Kastner, "Opera Laster King of Judá" (O último rei de Judá), no Conservatório de Paris.
Tenho encontrado somente na internet (o que não é uma das fontes mais confiáveis), que Adolph Sax teria feito um desafio. Diz-se que ele colocou seus músicos com os saxofones em número de 28, e a banda marcial francesa com 35 músicos. Diz a “lenda” que os sax teriam sobressaído em timbre, beleza, sonoridade e volume, tendo a partir deste dia, a banda marcial francesa aderido aos instrumento.
Ravel, sendo um compositor francês não faria diferente e colocaria os saxofones em suas obras, das quais a mais conhecida é Bolero. Trata-se de uma encomenda de uma bailarina Ida Rubinstein. A estréia ocorrei em Paris, na Ópera Garnier em 22 de novembro de 1928, onde os saxofones estavam lá, na orquestra, no seu lugar de instrumentos de madeira.
Ocorreu nesta obra um fato bastante curioso, onde lê-se na partitura original um saxofone sopranino em Fá. Contudo, só existem saxofones sopraninos em Mib, e não se sabe ao certo se alguma vez existiu um saxofone sopranino com afinação em Fá ou Ravel pretendia fazer uma transposição. Mas verificando um estudo sobre a patente de Adolph Sax sobre seu instrumento em 1846, onde incluía-se 14 variações, pode-se encontrar o saxofone sopranino em Fá.
Outra curiosidade é que o Bolero é tocado diariamente na Praia do Jacaré em João Pessoa durante o pôr-do-sol, pelo músico Jurandy do Sax.
O uso do saxofone em orquestras não fica restringido à Ravel, mas difunde-se pelo mundo. "Rhapsody" (1903) de Claude Debussy e a "Fantasia Para Saxofone Soprano e Orquestra" de Heitor Villa Lobos são ótimos exemplos do uso destes instrumentos. Talvez devesse ser mais explorado, e deixado de lado o boicote intentado por interesseiros da época de Adolph Sax, e que perdura até hoje, de alguma maneira, quando se diz: sax não é instrumento de orquestra.
Segundo o dicionário de música de Arthur Jacobs, Richard Strauss incluiu um quarteto de saxofones na sua Sinfonia Doméstica, de 1904
Contudo, ainda existe um repertório tímido de peças eruditas para os saxofones e ainda, nas grandes orquestras, os saxofones são tocados por clarinetistas, o que merece ser mudado, já que é um instrumento rico e com especificidade ímpar.

SERGEI SERGEIEVITCH PROKOFIEV

  1. Biografia de Sergei Prokofiev

Nascido em 23 de abril de 1891, em Moscou, Sergei foi um prodígio na música. Aos 14 anos já havia escrito 4 óperas e com posto peças para piano e orquestra. E São Petersburgo, sob a orientação de Rimski-Korsakov e Tcherepnin. Com a revolução, Prokofiev exilou-se no exterior por vários anos, o que foi bom de certo modo, pois ele pôde ter contato com cineastra Eisenstein, o qual criou diversas peças para seus filmes, dentre os quais, se destacam Ivã, O Terrível e Alexander Newsky.

Quando Sergei retorna á URSS, já havia uma alteração política sem igual. O novo sistema exigia uma comunicação maior entre o artista e o público, fazendo com que a obra de Prokofiev exiba um tom muito mais popular e acessível.

Sergei Prokofiev faleceu em 1953 faleceu vítima de uma hemorragia cerebral o que fez com que várias de suas obras ficassem inacabadas. Fato curioso é que Sergei faleceu no mesmo dia e hora de Stalin. Isto fez com que, por três dias, o povo chorasse sua morte na Praça Vermelha, o que impedia o corpo de Sergei de deixar o velório. Ainda, seu túmulo teve de ser ornado por flores artificiais já que todas estavam á disposição de Stalin. Nem um recital musical foi possível em seu velório,s endo tocada a marcha fúnebre de Romeu e Julieta em um velho toca-fitas. Existe uma lenda que conta sobre o velório de Prokofiev, que o toca-fitas apresentou defeito bem no meio da execução da marcha fúnebre terminando-a bruscamente num zunido.

O fato de Prokofiev ter falecido no mesmo dia e hora de Stalin fez com que sua morte ficasse despercebida, sendo noticiado dias depois apenas pelo jornal “A Voz da América”.

Prokofiev

























  1. Nacionalismo Russo x Neoclassicismo

Naquela época, onde haviam Stravinsky e Tchaikovsky, o Nacionalismo Russo estava á todo vapor. O Estado encomendava peças aos compositores, e a música russa era encorpada e cheia de emoção e movimento.

Mas Prokofiev ia um tanto contra esta tendência. O Neoclassicismo estava inundando o mundo como ocorria também com o Neobarroco, tudo isto fazendo parte da modernidade vivida em todos os âmbitos da arte.

Prokofieve, segundo diversos autores, buscou no neoclassicismo a inspiração de sua obra, não deixando de lado o Nacionalismo Russo, pelo menos enquanto residia em Moscou. Mas com sua saída para o exterior, aproveitou o Neoclassicismo e trouxe para si a modernidade da época. Vejamos que o Neoclassicismo buscava novamente, como o fez o classicismo, inspiração na cultura greco-romana da antiguidade. Contudo, busca uma linguagem mais simples, o que produziu músicas mais acessíveis ao público não especializado. Foi a faze mais popular de Prokofiev, que também foi a maior influência em sua produção musical.


  1. A Obra de Prokofiev

A produção artística de Prokofiev foi marcada pelo seu aspecto revolucionário. Do mesmo modo que o jovem Prokofieve se metia em manifestações revolucionárias em plena Rússia, o compositor Prokofieve repentinamente se vê envolto com o neoclassicismo e com produção de trilhas sonoras para os filmes de Einsenstein.

Toda esta riqueza fez com que a obra de Prokofieve fosse do Nacionalismo Russo ao Neoclassicismo, e do humor á seriedade. Da Ópera ao poema infantil.

Destacam-se os balés Romeu e Julieta (1938) e Cinderela (1945), a Ópera Guerra e Paz (1941-1952), sem deixar de mencionar as diversas sinfonias e suítes.



4. Ponderações sobre a Obra de Prokofiev 
 
    4.a. O Poema Sinfônico Peter and the Wolf

Pedro e o Lobo foi reproduzido várias vezes por teatros de bonecos e até pela Disney, versão esta que ficou conhecida mundialmente. Trata-se de uma inovação, onde a trilha sonora é interpretada pela cênica. Ocorre que normalmente, a trilha sonora serve de apoio emocional para a cênica, reforçando sentimentos de medo, carinho e suspense. Com Pedro e o Lobo, os instrumentos tornam-se os protagonistas, por exemplo, Pedro sendo interpretado pelo conjunto de cordas, e o pato por um oboé. O pássaro por uma flauta transversal.

As imagens apenas reforçam a idéia transmitida pelos instrumentos. Realmente, como estudante de música, fiquei bastante empolgado com a idéia. Ver as imagens e ouvir os instrumentos executarem, além de uma trilha sonora, uma verdadeira sonoplastia, foi revelador.

Pedro e o Lobo parte 1


Pedro e o Lobo parte 2



4.b. Ballet Romeu e Julieta

De tudo o que ouvi sobre Prokofiev, Dance of the Knights foi realmente o que mais me envolveu. Seu brilhantismo, sua seriedade, sobriedade em seus intervalos. A dança formada pelo tema em oitavas, fazendo por si só um ballet.
Pelo que percebi a música de Prokofiev é perfeita em si mesma, subsistindo sem a necessidade da cênica, mesmo quando criada para acompanhá-la.

Esta composição, “Dance of Knights” é digna de ser observada como ícone além de seu tempo, perdurando até os dias de hoje, pois ainda transmite, como de fato me transmitiu, toda a seriedade e beleza mórbida do Gótico atual. Digo atual, pois difere do movimento oitentista.

Acredito que assemelha-se á trilha sonora de Dracula de Bram Stocker filmado por Coppola, ou O Lobisomen, recente filme de horror gótico de Joe Johnston, onde mesmo com todos os efeitos especiais e imagens digitais, necessitam de trilhas sonoras como “Dance of the Knight” para se tornarem obras-primas.



Vídeo feito com cenas de O Barbeiro Demoníaco e a música Dance of the Knights de Prokofiev. Percebam o efeito da música nas cenas.




    5. Bibliografia
Enciclopédia Barsa - Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Grande Enciclopédia Larousse Cultural